O pesar à morte de J. H. Saraiva
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O pesar à morte de J. H. Saraiva
O pesar à morte do professor José Hermano Saraiva

por José Carvalho, professor e investigador de História

04 agosto 2012

Para quem tem estado atento à questão da morte do professor José Hermano Saraiva, nas televisões, nos jornais, na rádio, na Internet e nas redes sociais, parece que são mais os ódios para com a figura do que os amores. No primeiro caso, parece que estamos perante uma personalidade sombria e que apenas alimentou ódios. Porém, para quem ouve as pessoas na rua e nos mais variados locais públicos repara que estamos perante uma pessoa que recolhe o amor e a admiração do povo. Aquilo que tem feito notícia de destaque, e temos de ser realistas, têm sido as críticas em relação à figura. Mas uma coisa, meus caros, e já tenho idade suficiente para o perceber, é a opinião publicada, e outra, bem diferente, é a chamada opinião pública.

O professor Hermano Saraiva foi um homem que o povo amava e uma certa esquerda odiava. Dizemo-lo agora - e depois do que se tem passado nestes dias -, mostrando à sociedade aquilo que é o nosso país.

Mas analisemos o que se passou naquela a que uma certa esquerda gosta de chamar a "casa da democracia", leia-se: a Assembleia da República.

Um voto de pesar pela morte do prof. José Hermano Saraiva foi apresentado pelos deputados do PSD, do CDS-PP e pelo deputado Rui Santos, do PS. O secretário da Mesa da Assembleia, Abel Baptista, que leu o voto, apontou o professor, divulgador da História e ex--ministro da Educação como "uma personalidade incontornável da cultura portuguesa" e endereçou as condolências à família de Hermano Saraiva, enaltecendo, ainda, a sua "dedicação" à História de Portugal e a "perseverança" e "mestria" com que "se dedicou à sua divulgação".

Este voto de pesar teve o apoio do PPP-PSD, do CDS-PP e do PS. Votaram contra os partidos de extrema-esquerda: PCP/"Os Verdes" (verdes por fora, mas bem vermelhos por dentro) e BE.

O deputado e ex-ministro da Justiça do PS, Alberto Costa, anunciou a apresentação de uma declaração de voto em conjunto com o antigo secretário-geral socialista: Eduardo Ferro Rodrigues. Os deputados Delgado Alves e Isabel Moreira do PS, por sua vez, abstiveram-se.
Perante este cenário, tentemos perceber o que significará um voto de pesar, votar contra e uma abstenção a um voto de pesar pela morte de alguém.

Primeiro vejamos o que significa um voto de pesar. Para mim, que ainda sou muito jovem, esse voto transmite um lamento profundo por alguém que partiu e que não queríamos que partisse. Que queríamos sinceramente que essa pessoa ficasse entre nós, mas, infelizmente, partiu. Que continuasse a partilhar a sua vida e experiências connosco. É também uma forma pública de mostrar um sentimento nacional à sua família e aos amigos. Mas também de reconhecimento e agradecimento pela importância da obra de quem partiu.

Pela forma inversa, votar contra um voto de pesar deve significar, julgo eu, um gesto que se associa a um desejo claro que alguém morra ou desapareça. Transparece nesta atitude um sentimento de ódio, de vingança ou de inimizades profundas.

Assim, e para mim, uma abstenção a um voto de pesar, por sua vez, não é nada. É uma atitude amorfa e neutra. Mais: é intelectualmente desonesta.

Recordemos aqui que quando Álvaro Cunhal morreu (considerado, para alguns, um herói da URSS por serviços prestados; para outros, a grande maioria do povo português, foi um traidor a Portugal), toda a Assembleia da República, da direita à esquerda, votou o pesar e as condolências.
No caso do prof. Hermano Saraiva revelou-se a qualidade canina da esquerda: PCP/"Os Verdes" e BE.

O BE e o PCP/"Os Verdes", que deveriam funcionar como reserva moral do nosso sistema político, uma vez que não estiveram no poder recentemente, já tinham mostrado cobardia ao não terem ido discutir com a denominada troika as condições do resgate financeiro; agora, com este caso de Hermano Saraiva, mostram a verdadeira face, fundada na total falta de tolerância para com quem não é dos deles.

Porém, e daquilo que tenho visto, não tenho dúvida de que, se este voto fosse a referendo, obteria a maioria absoluta dos resultados.

Analisemos agora a atitude da deputada Isabel Moreira, eleita nas listas do PS. Referiu que aquilo que fez teve única e exclusivamente a ver com uma "decisão pessoal". Mas será que esta atitude é a mais correcta?

Parece-me que muitos deputados não têm a verdadeira noção do seu cargo. A ideia do "eu" deve diluir-se na ideia da representação. O que cada um deve fazer, em cada momento, é tentar interpretar o sentir dos eleitores que nele votaram.

Assim, parece-me que esta deputada não tem razão, assim como não têm razão os deputados do BE e PCP/"Os Verdes" que deveriam analisar o que estava em causa.

O que se propunha era um voto de pesar pela morte de alguém que foi um divulgador da cultura nacional, que levou muitas pessoas (de esquerda ou não) a visitar monumentos e museus e a comprar livros de História. O passado e as opiniões políticas do visado, parece-me, não estavam sob apreciação. Mas assim se vê a pequenez de um parlamento e de alguns dos seus membros.

A deputada Isabel Moreira decidiu não apoiar um voto de pesar por um antigo ministro de Salazar. Fico curioso como vai votar a sra. deputada quando for a vez do pai dela (Adriano Moreira).

Recordo que o que estava em causa era homenagear um divulgador da História. O homem que não se importava de ser malvisto pelos seus pares, que nunca gostaram da imagem "popularucha" de contador de estórias da História. Mas esquecem que o prof. Hermano foi dos poucos que merecem o título de professor: ensinava e divulgava. Coisa que poucos conseguem fazer.

Era isto que estava em voto, pesar pelo grande homem culto e próximo de todos. Nada mais. Mas a mentalidade tacanha ainda está presa aos fantasmas do passado e é incapaz de separar o historiador das suas ideias políticas (e o prof. Hermano Saraiva estava retirado da política há décadas).

Goste-se ou não do homem, merecia um reconhecimento categórico por parte de todos os representantes do povo na Assembleia da República. Mas cada um responde por si e a História dirá de sua justiça quem teve a atitude mais correcta.

Vale a pena pensar nisto!

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